Say it In Portuguese

Acordo Ortográfico de 1990

2019-04-07 (Last Update: Tue, 02 Jul 2019) Cristina Água-Mel 0 linguagem

Eu sou a favor do acordo ortográfico! Acho, inclusivamente, que este acordo é fundamental para a sobrevivência do Português como uma das línguas mais faladas do mundo!

O acordo não pretende alterar a ortografia para nos entendermos melhor. Pretende apenas consciencializar todos os falantes para uma convergência que permita manter o Português como uma das linguas mais faladas do planeta Terra. Se os falantes de Português Europeu não fizerem um esforço para se aproximar dos 200 milhões de brasileiros e do crescente número de africanos e timorenses que, apesar de tudo, adotaram a nossa língua e lhe vão acrescentando valor e importância mundial, no futuro iremos ter duas ou três ou mais línguas independentes com raízes no galego-português e o Português Europeu será — se sobreviver — uma língua mais que minoritária, falada por uns míseros 10 milhões de pessoas (ou menos) que terão de ser obrigatoriamente bilingues noutra língua, como são hoje, os dinamarqueses e os holandeses.

Os falantes de inglês não fazem acordos entre si pois têm o privilégio da sua língua ser a língua franca do mundo inteiro e dos países onde se fala inglês como língua materna serem países desenvolvidos com boas redes escolares e uma literatura de renome e importância global! Se olharmos para línguas com características mais próximas da nossa como o Espanhol e o Francês, os seus falantes não assinaram nenhum acordo ortográfico porque há muito que têm uma Academia que toma decisões sobre a língua escrita.

Quanto à língua falada, essa é construída pelos falantes e o inglês falado como segunda língua pelos indianos, o francês usado no Burkina Faso, ou o espanhol da Argentina não são simplesmente variedades o inglês usado em Oxford ou Washington, do francês de Paris ou Quebec, e do espanhol de Madrid.

Na China falam-se 54 dialetos mas existe uma única língua escrita que todos compreendem.

Quando Fernando Pessoa diz que a sua pátria é a língua Portuguesa — não está a falar de Portugal ou da língua que então era falada em Portugal e no Brasil mas a protestar contra quem escreve mal, e desrespeita as regras ortográficas. O seu argumento é (na ortografia de época):

«Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»

in Livro do Desassossego de Bernardo Soares, ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, págs. 16-17

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